DNA revela risco oculto de câncer em 1 a cada 20 pacientes, aponta maior estudo genômico do Reino Unido
Análise com 14,7 mil pessoas mostra que 5% carregam variantes hereditárias relevantes; achados ampliam debate sobre testagem genética em massa e impacto no sistema de saúde

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Uma em cada 20 pessoas diagnosticadas com câncer pode carregar, silenciosamente, uma predisposição genética herdada para desenvolver a doença. A conclusão é de um dos maiores estudos já realizados sobre o tema, publicado nesta quarta-feira (1º), na revista The Lancet Oncology, que analisou dados de 14.765 pacientes atendidos pelo sistema público de saúde do Reino Unido. O trabalho lança nova luz sobre o papel da genética no câncer — e acende um alerta para os desafios clínicos e éticos de ampliar a testagem genômica.
Conduzido por pesquisadores da Universidade de Cambridge, incluindo o geneticista James Whitworth e a oncogeneticista Serena Nik-Zainal, o estudo examinou variantes hereditárias — conhecidas como germinativas — em 109 genes associados à predisposição ao câncer. O levantamento foi baseado no ambicioso 100.000 Genomes Project, iniciativa do governo britânico para integrar sequenciamento genético à prática clínica.
Os resultados são expressivos: 711 dos 14.765 participantes (cerca de 5%) apresentavam variantes classificadas como “patogênicas” ou “provavelmente patogênicas”, ou seja, com potencial direto de aumentar o risco de câncer. No total, foram identificadas 727 alterações genéticas relevantes — algumas pessoas carregavam mais de uma.
“Entender a frequência e a natureza dessas variantes é crucial para o planejamento dos serviços de saúde”, escrevem os autores. Segundo eles, a expansão da testagem genética pode trazer benefícios, como detecção precoce e prevenção, mas também riscos, como intervenções desnecessárias e sobrecarga do sistema .
Genes conhecidos — e surpresas
Entre os genes mais frequentemente associados às variantes detectadas estão o CHEK2 (presente em 0,82% dos participantes) e o BRCA2 (0,75%), ambos já conhecidos por sua relação com câncer de mama . Outros genes importantes incluem BRCA1, TP53 e ATM, todos ligados a diferentes síndromes de predisposição.
Os tipos de câncer mais comuns na amostra foram mama (20%), colorretal (18%) e pulmão (10%), com idade média ao diagnóstico de 62,9 anos . O estudo também identificou variações significativas entre tipos de tumor: no câncer de ovário, por exemplo, cerca de 9% dos casos apresentavam variantes genéticas relevantes — uma das maiores proporções observadas .
Mas nem todas as descobertas confirmam expectativas. Apenas 45% das variantes identificadas estavam diretamente associadas ao tipo de tumor diagnosticado no paciente . Em mais da metade dos casos, a relação entre o gene alterado e o câncer observado era incerta ou inexistente — um dado que complica a interpretação clínica.
“É provável que muitas dessas variantes não sejam a causa direta do câncer no paciente”, alertam os pesquisadores. Isso significa que, embora geneticamente relevantes, nem todas justificam intervenções médicas imediatas.
Historicamente, testes genéticos eram reservados a pacientes com forte histórico familiar ou características clínicas específicas. Esse modelo seletivo, porém, pode deixar escapar casos relevantes. O novo estudo sugere que uma abordagem mais ampla — testando todos os pacientes com câncer — poderia identificar milhares de variantes adicionais.
No Reino Unido, por exemplo, os autores estimam que a testagem abrangente em casos de câncer de mama e próstata (cerca de 55 mil novos diagnósticos anuais cada) poderia revelar até 5 mil variantes clinicamente significativas por ano .
O problema é que essa estratégia tem custo elevado e gera um grande volume de resultados ambíguos. “Há consequências que vão além do tratamento imediato, incluindo vigilância de longo prazo e testes em familiares”, destacam os autores .
Além disso, variantes de baixo risco ou de significado incerto podem levar a ansiedade, exames desnecessários e até cirurgias preventivas sem benefício comprovado.
Evolução da ciência — e da precisão
O estudo também ajuda a explicar por que pesquisas anteriores encontraram taxas mais altas de predisposição genética, chegando a 8% ou até 11% dos pacientes. A diferença, segundo os autores, está no refinamento dos critérios de análise.
Nos últimos anos, avanços em bancos de dados genéticos, ferramentas de bioinformática e diretrizes internacionais — como as do American College of Medical Genetics — tornaram a classificação de variantes mais rigorosa, reduzindo falsos positivos .
“Aplicamos práticas mais recentes e específicas, o que resultou em estimativas mais precisas”, afirmam Whitworth e colegas. Isso reforça a ideia de que a genética do câncer é mais complexa — e menos determinística — do que se pensava.
O debate sobre testagem genética em larga escala ganha relevância em um mundo onde o câncer é uma das principais causas de morte. Segundo estimativas globais, milhões de novos casos são diagnosticados anualmente, pressionando sistemas de saúde e exigindo estratégias mais eficazes de prevenção.

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A identificação de predisposição genética abre caminho para intervenções personalizadas, como rastreamento intensivo, mudanças de estilo de vida e, em alguns casos, cirurgias preventivas. Ao mesmo tempo, exige infraestrutura, profissionais especializados e protocolos claros.
O estudo britânico reforça que não há solução simples. “A escolha da estratégia de testagem deve equilibrar utilidade clínica e recursos disponíveis”, concluem os autores .
Entre promessa e prudência
Se há uma mensagem central no trabalho, é a necessidade de cautela. A genética oferece ferramentas poderosas, mas seu uso indiscriminado pode gerar mais dúvidas do que respostas.
Ao revelar que 5% dos pacientes com câncer carregam variantes hereditárias relevantes — muitas delas de significado incerto —, o estudo redefine o debate sobre prevenção e diagnóstico. Mais do que nunca, a medicina de precisão depende não apenas de tecnologia, mas de interpretação cuidadosa.
E, nesse terreno, cada gene conta — mas o contexto continua sendo decisivo.
Referência
Interpretação de variantes genéticas de predisposição constitucional ao câncer em 14.765 indivíduos no braço de câncer do Projeto 100.000 Genomas: uma análise retrospectiva de coorte. The Lancet Oncology Vol. 27 No. 4 p502 Publicado: abril de 2026. James Whitworth, Valerie Yawen Wang, Daniella Black, Helen Ruth Davies, Andrea Degasperi, Diana Prepelitae outros. DOI: 10.1016/S1470-2045(25)00766-1